PARA O NOVO MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Costumo diferenciar os comandantes, tenham a escolaridade que tiverem, dos que, embromadores de carteirinha, fingem que comandam, ainda que portem diplomas da mais alta envergadura, alguns até conferidos através de procedimentos não muito ortodoxos.
O sociólogo Gilberto Freyre chamava de PhDeuses os que se imaginam tampas-de-foquete, mal passando de rabo de galinha semi-morta. E foi para os “notabilíssimos de araque” da sua época, tenho quase certeza, que Fernando Pessoa - um desabestado que ainda será, um dia, ainda mais aclamado pelos seus irmãos de Língua Portuguesa - escreveu o Poema em Linha Reta, aqui transcrito na íntegra: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. / E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, / Indesculpavelmente sujo, / Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / Que tenho sofrido enxovalhos e calado, / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; / Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, / Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, / Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, / Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco; / Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. / Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... / Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? / Ó príncipes, meus irmãos, / Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? / Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? / Poderão as mulheres não os terem amado, / Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! / E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, / Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? / Eu, que venho sido vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”. Se eu pudesse, abraçaria os que se sentem ingenuamente líderes, muito mal se apercebendo meganhas, recomendando com toda sinceridade: “Seja menos burocrata, menos carimbológico, menos formulário para preenchimentos inócuos. Elimine sua babaquice e abandone sua mania de provocar distúrbios hidrocélicos nos companheiros de trabalho, percebendo que liderança se constrói a partir da admiração dos pares, jamais por posicionamentos inocuamente exibicionistas. E principie a pensar alto, como Ser Humano, sem complexos de sacristão babão de padreco puritano, sem perder a ternura jamais, nunca confundindo afetividade com fricote de menino fresquelete que nunca comeu um churrasco pra não se entregar aos prazeres da carne... E jamais se porte como dinossauro amebento, enrolocrata, nanico mental com obsessões de Calígula, muito embora só possua uma besta metida a cavalo. |
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