POR UM BRASIL MAIS ÉTICO

Tudo tem uma história, um lugar de produção e uma correção se necessária. Para os que pretendem ornar-se cristãmente mais cidadãos, recomendo oportuníssimas duas leituras. A primeira, Santo Domingo, Conclusões da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano,1992, é uma edição didática elaborada pelo teólogo jesuíta João Batista Libânio, de quem fui aluno no Mestrado em Educação da PUC-RJ, 1973. A segunda, para se obter uma visão atualizada da vida cristã, reúne quatro volumes num só, tomando o título de Catecismo Popular. Seu autor, Frei Betto, transmite os fundamentos básicos da Doutrina Cristã, de acordo com as mais recentes análises teológicas. Sem preconceitos, sem temer os medos e os mitos que ainda povoam as mentes de inúmeros leigos ingênuos, alguns religiosos nostálgicos e até mesmo bispos e cardeais sem atualizações teológicas. O Frei Betto busca enfatizar, em seus estudos, as raízes bíblicas da fé cristã e suas dimensões ecumênicas, sem nostalgias vitimistas, tampouco obsessões apologéticas. O prefácio do Libânio, além de conter um histórico completo acerca das fases preparatórias que antecederam a IV Conferência, aponta para alguns silêncios acontecidos. O mais significativo deles: o total desaparecimento da palavra libertação, do ideário evangélico a partir de Medellin. As Comunidades Eclesiais de Base também não merecem uma maior atenção, apenas sendo simplesmente mencionadas como uma das inúmeras formas de realização da comunhão na Igreja.

As análises da realidade social do continente também estiveram ausentes no documento de Santo Domingo. E elas seriam fundamentais na obtenção de um mais acurado ajuizamento acerca das etapas de construção do Reino de Deus na região. quando especialistas de inúmeras instituições estão debruçados sobre as “tendências globais” de hoje nas primeiras décadas de um novo milênio, a exigir mais disposição fraterna para um amanhã menos sofrido.

A leitura do Catecismo Popular do Frei Betto pode se caracterizar como um reencontro com a mensagem do Senhor, numa linguagem acessível, sem prejuízo algum da profundidade teológica. Em oitenta e seis capítulos curtos, Frei Betto denuncia as omissões, ilustrando tudo com citações oportunas, oferecendo à inteligência humana as razões básicas de uma militância concreta, como recomendou Pedro em sua Primeira Carta (3,15).

Creio que os trabalhos de Libânio e Betto muito se interconectam. Um analisa o cotidiano do ser cristão, à luz do Evangelho do Senhor Jesus. O outro reproduz as linhas mestras de uma Igreja Latino-americana que necessita revitalizar-se através dos seus leigos mais comprometidos com as urgentes novas estruturas sociais, desafiadoras por excelência até por instinto de sobrevivência global.

Nós, leigos, urgentemente necessitamos entender mais efetivamente as mensagens do Senhor da História. O documento de Santo Domingo é incisivo: “A persistência de certa mentalidade clerical nos numerosos agentes de pastoral, clérigos e inclusive leigos (cf. Puebla,784), a dedicação preferencial de muitos leigos em tarefas intra-eclesiais e uma deficiente formação privam-nos de dar respostas eficazes aos atuais desafios da sociedade“.

Para todo cristão, mormente para os mais jovens, os que ultrapassarão com pleno vigor físico as futuras décadas do atual século, ser libertário cristão será historicamente fundamental. Para eles e para todos os seus derredores. E para todas as demais regiões do Brasil e da América Latina. Para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).