BALIZAMENTOS PARA AS ELEIÇÕES
A campanha eleitoral deste ano, principiada esta semana, tudo faz crer que será o retrato fiel do atual desnível civilizatório do nosso país, sempre distanciado das regiões mais evoluídas do planeta. Nossos níveis analfabéticos se ampliam cotidianamente: o político, o religioso, o familiar, o profissional, o comunitário, o cultural, o esportivo, o televisivo, para não falar do educacional, onde o último censo escolar indica que 60% dos alunos que concluem o Segundo Grau de Ensino não possuem os conhecimentos básicos de Matemática!
No Contrato Social, o notável Jean-Jacques Rousseau afirmava que “Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições ao povo.” Entretanto, hoje temos muito pouco povo e uma gigantesca massa alienada, que apenas sabe dizer sim, senhor, sem uma mínima criticidade analítica, sempre vitimada por um processo educacional imposto por uma elite reacionária que não se está percebendo em final de era, ignorando desenvolvimento social pós-moderno, com seus impasses trágicos.
Uma releitura recente me fez extrair uma serie de balizamentos que repasso para os leitores amigos, encarecendo o repasse deles para seus derredores familiares e comunitários. A fonte é merecedora de múltiplos elogios: AS PALAVRAS DE SARAMAGO: CATÁLOGO DE RFLEXÕES PESSOAIS, LITERÁRIAS E POLÍTICAS, Fernando Gómez Aguilera (organização e seleção), São Paulo, Companhia das Letras, 2010, 479 p. Eis as escolhidas:
a. “O que faz falta é uma insurreição ética. Não uma insurreição das armas, mas ética, que deixe bem claro que isto não pode continuar. Não se pode viver como estamos vivendo, condenando três quartas partes da humanidade à miséria, à fome, à doença, com um desprezo total pela dignidade humana. Tudo isso para quê? Para servir a ambição de uns poucos. Não sou nem pregador, nem profeta, nem messias, apesar de ter escrito O Evangelho segundo Jesus Cristo. Só falo de evidências, de coisas que estão à vista de todos. E sei que tenho razão.”
b. “A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.”
c. “A amnésia humana é ruim para as pessoas e também para as sociedades. Temos de saber quem somos para viver com consciência de estar vivos. Continuamos perguntando e procurando.”
d. “Destinamos tempos demais a conjecturar o que há além da vida, e tempo de menos a nos indagar sobre o que está acontecendo na vida mesmo.”
e. “A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina são o que formam o corpo desse esqueleto.”
f. “A verdade é que vivemos numa sala de espelhos na qual tudo se reflete em tudo e é, por sua vez, reflexo de si mesmo.”
g. “O que eu digo é que tenho, como cidadão, um compromisso com o meu tempo, com o meu país, com as circunstâncias, digamos, do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra.”
Busquemos espalhar os balizamentos saramagueanos acima, com a resiliência de nunca ser um eleitor penico cheio nas eleições que se aproximam, posto que devemos ter sempre em nossa evolução as duas mãos e o sentimento do mundo.
